Preenchimento na Impressão 3D: Qual Padrão e Quanto Usar

A porcentagem de preenchimento mede só o miolo da peça, não a peça inteira (wiki do OrcaSlicer). Pelas faixas da wiki da Polymaker, use 8 a 15% em peça decorativa, 20 a 40% em peça funcional e perto de 50% em peça de alta resistência; acima disso, o ganho cai. Giroide, grade e cúbico têm a nota mais alta de resistência na documentação do Orca, e em peça de parede fina mais paredes rendem mais que mais infill.
O que é preenchimento e o que a porcentagem mede
Preenchimento (infill) é a estrutura de dentro da peça. Em vez de imprimir tudo maciço, o fatiador desenha uma treliça no miolo, e isso equilibra três coisas que brigam entre si: resistência, tempo de impressão e consumo de filamento. A wiki do OrcaSlicer (página "Infill", lida em 16/10/2026) resume a regra em uma linha: densidade maior aumenta a resistência, o material usado e o tempo de impressão.
A dúvida mais comum é o que a porcentagem mede. Uma peça impressa tem uma casca e um miolo:
- Paredes: as voltas de contorno, por dentro e por fora.
- Camadas de topo e de fundo: as superfícies sólidas de cima e de baixo.
- Preenchimento: só o espaço que fica fechado entre elas.
A mesma página do Orca avisa que a densidade costuma ser uma porcentagem do volume de preenchimento, não do volume total da peça, e que nem todo padrão interpreta a densidade do mesmo jeito. Ou seja: uma peça a 15% não é uma peça com 15% de plástico. Ela tem a casca inteira sólida e 15% do miolo ocupado pela treliça. Em peça pequena e de parede grossa, quase tudo já é casca, e a porcentagem muda pouca coisa.
No outro extremo, 100% não é "um preenchimento muito denso". No OrcaSlicer 2.3.2, a descrição do campo diz que 100% transforma todo o preenchimento esparso em sólido e passa a usar o padrão de preenchimento sólido (arquivo PrintConfig.cpp da versão 2.3.2, lido em 16/10/2026).
Quanto usar: 10%, 20%, 50% ou 100%?
A faixa mais citada em português vem da wiki da Polymaker (página "Preenchimento (Infill)", lida em 16/10/2026):
- Peça decorativa ou protótipo: 8 a 15%.
- Peça funcional: 20 a 40%.
- Peça de alta resistência: perto de 50%.
- Casos especiais: 0% pode funcionar se as paredes já derem rigidez suficiente; 99% só faz sentido em usos muito específicos.
O aviso mais útil da página vem logo depois: acima de 50%, o ganho de resistência costuma cair bastante em relação ao custo em tempo e material. Então ir de 50% para 100% gasta muito mais tempo e filamento para um ganho de força bem menor que esse gasto. A própria Polymaker sugere começar com algo como 15% em protótipo e aumentar conforme a necessidade.
Antes de fatiar, pergunte: a peça vai ficar parada numa prateleira, vai encaixar e levar esforço leve, ou vai segurar carga? Um vaso, um enfeite ou um boneco ficam na primeira faixa. Um suporte de parede, uma dobradiça ou um gancho vão pra segunda. Se o PLA está quebrando onde não devia, o post PLA quebra fácil? mostra o que ajustar antes de culpar o material.
Tem um sinal visual de preenchimento baixo demais: topo afundado ou com buracos. A Polymaker lista duas saídas pra isso, aumentar o preenchimento ou aumentar as camadas superiores. Subir as camadas de topo mexe só na superfície, sem encher o miolo.
E pra transformar o peso da peça em custo de filamento, a tabela de gramas e reais por peça está em quanto rende 1 kg de PLA.
Padrões: giroide, grade, cúbico, hachura cruzada e relâmpago
O padrão é o desenho da treliça. Com a mesma densidade, padrões diferentes mudam resistência, tempo e até a aparência por fora. A wiki do Orca (página "Patterns", lida em 16/10/2026) dá uma nota pra cada um. Os mais usados, com as palavras da própria wiki:
| Padrão (nome no Orca em português) | Resistência X-Y / Z | Material | Tempo |
|---|---|---|---|
| Giroide (Gyroid) | Alta / Alta | Normal | Alto |
| Grade (Grid) | Alta / Alta | Normal | Normal-baixo |
| Cúbico (Cubic) | Alta / Alta | Normal | Normal-baixo |
| TPMS-D | Alta / Alta | Normal | Alto |
| Hachura Cruzada (Cross Hatch) | Normal-alta / Normal-alta | Normal | Normal |
| Cúbico Adaptativo (Adaptive Cubic) | Normal-alta / Normal-alta | Baixo | Baixo |
| Relâmpago (Lightning) | Baixa / Baixa | Ultrabaixo | Extrabaixo |
Antes de escolher pelo topo da tabela, leia como ela foi feita. Segundo a wiki, as notas são a média de três modelos (um cubo de 100 mm, um 3DBenchy e o coelho de Stanford) fatiados a 5, 15, 30 e 50% de densidade, sem paredes e sem topo nem fundo. E a página de referência rápida diz que as notas de resistência foram dadas à mão. As notas de tempo são a estimativa do próprio Orca, e o tempo real na impressora pode variar. É um guia de comparação, não ensaio de laboratório, e a própria wiki fecha com o lembrete de que não existe padrão que sirva pra tudo.
O que cada um faz:
- Giroide: superfície curva que dá a mesma resistência em todas as direções. A wiki acrescenta que, por não ter linha reta longa, ele ajuda a reduzir empenamento, porque a contração do material se distribui pelas curvas. O preço é tempo: fatia mais devagar e, na estimativa do Orca, imprime mais devagar que grade e cúbico.
- Grade: duas linhas perpendiculares em toda camada. Forte e rápido, mas os pontos onde as linhas se cruzam podem gerar ruído ou marcas.
- Cúbico: cubos com a quina pra baixo, distribuindo esforço em todas as direções. Mesma nota de resistência da grade, e um bom padrão pra quem quer força sem o tempo extra do giroide.
- Hachura cruzada: a wiki descreve como "similar ao giroide, mas com linhas retas", o que cria pontos fracos nos cantos internos. A recomendação dela é considerar TPMS-D ou giroide quando a resistência importa.
- TPMS-D: um meio-termo entre hachura cruzada e giroide, forte em todas as direções. Fatia mais rápido que o giroide e mais devagar que a hachura cruzada.
- Relâmpago: "ultrarrápido e com uso ultrabaixo de material", nas palavras da wiki, pensado pra protótipo que não leva esforço.
Qual padrão gasta menos filamento (e quando não usar)
Pela página "Patterns" do Orca, com a mesma densidade, giroide, grade, cúbico, TPMS-D e hachura cruzada ficam todos em consumo "normal". Trocar um pelo outro muda resistência e tempo, não muda muito o rolo. Os dois que gastam menos são:
- Relâmpago: uso de material ultrabaixo e tempo extrabaixo. Ele não preenche o miolo inteiro: a wiki explica que a densidade dele é calculada na camada logo abaixo do topo, porque a função dele é sustentar a superfície de cima, e o ângulo de saliência define até onde os galhos avançam a partir das paredes. Serve pra figura, enfeite e protótipo que não leva esforço. Não serve pra nada que vá levar carga, porque a resistência é baixa nos dois eixos.
- Cúbico adaptativo: mais denso perto das paredes e mais ralo no centro. A wiki diz que ele economiza material e tempo mantendo resistência, e indica pra peça grande. É a escolha pra economizar sem cair pro relâmpago.
Um cuidado com o relâmpago: como a conta da densidade é diferente, 15% de relâmpago não é comparável a 15% de grade. A wiki dá resistência baixa ao relâmpago nas densidades avaliadas (de 5 a 50%); se a peça precisa de força, troque o padrão.
O OrcaSlicer 2.3.2 também tem a opção Multilinhas de Preenchimento (Fill Multiline), que desenha o padrão com mais de uma linha paralela por trajeto. A wiki diz que 2 ou 3 linhas podem melhorar resistência e velocidade sem aumentar o material, e cita padrões fracos como o relâmpago entre os usos. No 2.3.2, a descrição do campo avisa que ele só vale "se suportado pelo padrão", então confira se o campo libera pro padrão escolhido.
Parede x preenchimento: o que deixa a peça forte
A wiki da Polymaker é direta: em peça de parede fina, o preenchimento influencia pouco, e as paredes externas importam mais. Em peça grande e grossa, aí sim mais preenchimento ajuda a sustentar o topo e melhora a estrutura.
Numa peça funcional e fina, então, o caminho costuma ser: primeiro mais paredes, depois mais preenchimento.
Isso não é motivo pra zerar o miolo. Em peça de topo largo, sem preenchimento as camadas de cima ficam sem apoio e podem afundar. Por isso as duas coisas andam juntas: paredes pra resistência de superfície e preenchimento na faixa certa pra sustentar o topo e segurar carga no meio.

Parede só é forte se o fluxo estiver certo. Se a impressora extruda menos do que deveria, as voltas ficam mais finas e mal coladas, e nenhum ajuste de preenchimento compensa. O passo de fluxo do guia como calibrar a impressora 3D usa um cubo com 2 perímetros e 0% de preenchimento justamente pra medir só a parede.
Onde mudar no fatiador e o que vem no perfil das Kobra
No OrcaSlicer em português, os três campos ficam na aba Resistência (Strength), na configuração de processo:
- Voltas da parede (Wall loops): o número de paredes em cada camada.
- Densidade do preenchimento esparso (Sparse infill density): a porcentagem.
- Padrão de preenchimento esparso (Sparse infill pattern): o desenho da treliça.
O que vem pronto depende do perfil. No código do OrcaSlicer 2.3.2, o valor genérico da densidade é 20%. Os perfis da Anycubic baixam isso, e usam um padrão que muita gente não espera. Lidos nos arquivos da tag v2.3.2 em 16/10/2026 (na 2.4.2, os perfis da S1 e da Kobra 3 seguem com os mesmos valores):
- Kobra S1: o processo escolhido por padrão é o "0.20mm Standard @Anycubic Kobra S1 0.4 nozzle", com 15% de preenchimento, padrão hachura cruzada, 2 paredes, 5 camadas de topo e 3 de fundo.
- Kobra 3 (o perfil que a Kobra 3 V2 usa): o processo padrão é o "0.16mm Optimal", com 15%, hachura cruzada e 2 paredes. O "0.20mm Standard" da mesma máquina traz os mesmos 15%, hachura cruzada e 2 paredes. O passo a passo de escolher esse perfil está em como configurar o OrcaSlicer na Kobra 3 V2.
- Kobra X: não tem perfil na 2.3.2. Na 2.4.2, a versão mais nova do OrcaSlicer (publicada em 07/07/2026), ela ganhou perfil próprio: o processo padrão "0.20mm Standard @Anycubic Kobra X 0.4 nozzle" vem com 15%, padrão grade, 2 paredes, 5 camadas de topo e 3 de fundo (arquivos da tag v2.4.2, lidos em 16/10/2026).
Ou seja: quem imprime na Kobra S1 ou na Kobra 3 V2 com o perfil de fábrica está usando hachura cruzada a 15% (e a Kobra X, com o perfil da 2.4.2, grade a 15%), que fica na faixa decorativa da Polymaker e no padrão que a wiki do Orca aponta como um degrau abaixo em resistência. Pra peça de enfeite, ótimo. Pra peça funcional, os ajustes que as fontes apoiam são subir a densidade pra faixa de 20 a 40%, trocar o padrão pra giroide, cúbico ou TPMS-D e, se a peça for fina, acrescentar voltas de parede antes de mexer no resto.
Se a peça tem uma parte que leva esforço e outra que é só volume, dá pra ir além e usar densidades diferentes em regiões diferentes do mesmo modelo, um dos ajustes de configurações avançadas do OrcaSlicer.
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Fotos: Jakub Zerdzicki / Pexels.
Ruan — Tamo Tudo 3D
Sou o Ruan, de Contagem/MG. Imprimo em 3D desde março de 2026 nas minhas Anycubic Kobra S1, Kobra 3 V2 e Kobra X. Os custos, tempos e margens que você lê aqui vêm da bancada real — medidos na mão, não de teoria.
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