Filamento de Garrafa PET Funciona na Impressora 3D?

Funciona, sim: dá pra transformar garrafa PET em filamento que entra na impressora 3D. Mas é um projeto de bancada, não um jeito de economizar. Um estudo publicado em setembro de 2026 conseguiu fio dentro da tolerância de diâmetro do filamento comercial e imprimiu peças com ele, mas gastou 3 garrafas de 1,5 L pra fazer só 5 peças de teste. É bom pra experimento; pra peça resistente do dia a dia, o caminho é comprar PETG pronto. E atenção: PET de garrafa não é PETG.
A pergunta aparece em trabalho de escola, em feira de ciências e entre quem acabou de ganhar uma caneta 3D. Abaixo, o que os trabalhos publicados mostram, inclusive o que eles não mediram.
Dá pra fazer filamento de garrafa PET? A resposta curta
Dá. O caminho mais documentado não é triturar a garrafa: é cortá-la em fita e "costurar" essa fita num fio redondo dentro de um bico aquecido. Em inglês, esse processo aparece com o nome de pultrusion (o fio é puxado através do bico, não empurrado).
O estudo mais completo que encontramos com texto aberto é de pesquisadores da Universidade Udayana, na Indonésia, publicado no Jordan Journal of Mechanical and Industrial Engineering em setembro de 2026 (lido em 08/10/2026). Eles usaram garrafas de água de 600 mL e de 1,5 L e chegaram a fios com diâmetro médio entre 1,71 e 1,73 mm, dentro da tolerância de 1,75 ± 0,05 mm que o próprio artigo usa como referência de filamento comercial.
O que o artigo não diz é que isso compense financeiramente: ele mede diâmetro, formato do fio e resistência das peças, e deixa de fora o custo e o tempo de fabricação do fio. A conta de trituradora mais extrusora de bancada já foi feita aqui no blog, no guia de o que dá e o que não dá pra reaproveitar de filamento, e não fecha pra quem imprime em casa. O filetador de garrafa é outra máquina, de baixo custo nos projetos de escola citados abaixo, mas o gargalo dele é outro: volume (veja quantas garrafas fazem um rolo).
Como funciona: corte em fita, filetador e bico quente
O processo tem três etapas, e todos os trabalhos que lemos seguem a mesma lógica:
- Preparo da garrafa. Lavar, tirar rótulo e cola e remover o fundo. O TCC de Engenharia Mecânica da UNESP de Ilha Solteira (Alvaro Augusto Ferreira, 2024; lido em 08/10/2026) insiste nisso: cola e sujeira atrapalham a formação do fio.
- Filetador. É o cortador que transforma a garrafa numa fita contínua, girando a garrafa contra uma lâmina ou contra rolamentos afiados. O FilaPET, da FEBRACE, propõe um filetador de MDF com lâmina; o projeto do IFSULDEMINAS usou uma lâmina de apontador.
- Bico quente e tracionador. A ponta da fita entra num bico aquecido, sai redonda do outro lado e é puxada por um motor de passo que enrola o fio num carretel. Em três dos quatro projetos brasileiros que lemos, o Arduino aparece como controlador da temperatura.

Dois detalhes do estudo da Udayana mudam a expectativa de quem vai tentar:
- O fio sai oco. Todos os filamentos do artigo tinham seção oca, porque a fita se dobra sobre si mesma dentro do bico. Nas garrafas de 600 mL, mais finas, as paredes internas chegavam a dobrar ou colapsar. Na hora de imprimir, os autores usaram fluxo de 130% e bico a 260 °C.
- A espessura da fita pesa mais que a temperatura. A fita das garrafas de 1,5 L tinha 0,20 mm; a das de 600 mL, 0,14 mm. A fita mais grossa deu fio com menos vazio e peças mais resistentes. A temperatura do bico de fabricação, testada entre 220 e 230 °C, não teve efeito significativo na resistência, segundo a análise estatística do artigo.
Ou seja, a garrafa da sua casa pode dar resultado diferente do estudo, que testou só dois tamanhos.
Quantas garrafas fazem um rolo?
Pelo estudo da Udayana, uma garrafa de 1,5 L rendeu uma fita de cerca de 6 m, e uma de 600 mL, cerca de 3 m. As 5 peças de teste de cada variação gastaram 13,24 m de filamento, que pesaram 39,5 g, e isso exigiu 3 garrafas de 1,5 L ou 6 de 600 mL.
Fazendo a conta com esses números (e assumindo, como o próprio artigo faz, que cada metro de fita vira mais ou menos um metro de fio), uma garrafa de 1,5 L dá algo perto de 18 g de filamento. Um rolo de 1 kg pediria mais de 50 garrafas dessas, todas lavadas, cortadas e passadas pelo bico sem errar. É a conta nossa a partir de um único estudo, não uma medida, mas mostra a escala do trabalho.
PET de garrafa x PETG: não é o mesmo plástico
Essa confusão é fácil de fazer, porque os nomes são quase iguais. PET é o polietileno tereftalato, o plástico da garrafa. O PETG é outra coisa: a ficha técnica do PET-G Premium da fabricante Spectrum Filaments (lida em 08/10/2026) define o material como "polietileno tereftalato modificado com glicol" (tradução nossa). O PETG é parente do PET da garrafa, mas foi alterado de propósito na fábrica, e é essa alteração que muda tudo.
Um estudo publicado na revista Polymers em junho de 2022 (Tsai e colegas, acesso aberto; lido em 08/10/2026) explica a diferença. O PET pode ficar amorfo ou semicristalino, conforme é aquecido e processado. O PETG não cristaliza. Em palavras simples: a estrutura do PET muda com o calor, a do PETG não. Na prática, um não substitui o outro só porque o nome parece.
Se a ideia era ter um material "tipo garrafa" na impressora, o que você quer de verdade é o PETG. Vale entender o que faz o PETG ser o filamento resistente e, se ainda está em dúvida, quando usar PLA e quando usar PETG. Como o PETG absorve umidade do ar (a ficha técnica de PET-G da BCN3D, lida em 08/10/2026, recomenda guardar os carretéis em caixa fechada com dessecante), vale saber também como secar filamento.
Caneta 3D, pistola de cola quente e outros usos caseiros
Quem pesquisa "filamento de garrafa pet" no Google vê sugestões como "para caneta 3D" e "com pistola de cola quente". Sobre as duas, o mais honesto é dizer o que encontramos e o que não encontramos.
Caneta 3D. Não achamos nenhum trabalho que tenha testado filamento de garrafa em caneta 3D e medido o resultado. A nossa leitura, sem teste: a caneta também empurra o fio por um bico quente, então o fio precisa ter o diâmetro que ela aceita. Desenhando à mão, um traço irregular incomoda menos do que numa peça impressa camada por camada, mas um fio oco ou fora de medida pode travar a alimentação do mesmo jeito.
Pistola de cola quente. Também não achamos nenhum projeto documentado que use pistola de cola quente pra fazer filamento de garrafa. Todos os trabalhos que lemos usam bico com controle de temperatura. E o controle de temperatura foi justamente onde o TCC da UNESP mais sofreu, como mostra o resumo logo abaixo. Se a dúvida é usar a pistola como "bico" do filetador, não há fonte que mostre isso dando certo.
O uso caseiro que tem documentação é o projeto de escola ou de laboratório maker: montar o filetador, produzir alguns metros de fio e usar como experimento. Como atividade, é ótimo. Como fonte de filamento pro dia a dia, os próprios trabalhos mostram o limite.
O que os projetos de escola mostram (e o que não medem)
Boa parte do que existe em português sobre o tema vem de feira de ciências e TCC. Vale ler o que cada um realmente fez.
FilaPET (FEBRACE 2024). O pôster de estudantes do Centro de Educação e Tecnologia Sesi/Senai de Maceió (lido em 08/10/2026) descreve um filetador de MDF com lâmina e uma extrusora com temperatura programada em Arduino. É uma proposta de projeto: a conclusão fala em próximos passos e em automatizar a produção, e o pôster não traz rendimento por garrafa, resistência nem fragilidade medidos. Não dá pra usar como prova de que o filamento é bom.
Máquina de baixo custo de Arapiraca (FEBRACE 2024). Outro pôster, de uma escola estadual de Arapiraca (AL; lido em 08/10/2026), mostra a máquina montada e o fio sendo produzido, e conclui que a escola comprou menos PLA pro laboratório de robótica. Também não traz medida de diâmetro, resistência ou quantidade produzida.
IFSULDEMINAS, campus Machado. O resumo "Sustentabilidade em 3D" (lido em 08/10/2026) relata peças impressas com "qualidade semelhante" às de filamento comercial. A comparação é visual: não há ensaio de resistência. Os autores contam que a primeira impressão a 260 °C não ficou boa e que o resultado melhorou a 250 °C, em outra impressora.
TCC da UNESP de Ilha Solteira (2024). É o mais franco de todos. O dispositivo foi construído, mas o circuito de aquecimento não conseguiu chegar à temperatura configurada, e o autor só produziu pedaços de filamento. Perto de 200 °C, a fita não se fechava e o fio ficava com uma abertura. Perto de 250 °C, apareceram bolhas e trechos escurecidos por queima. O melhor resultado veio entre 240 e 245 °C, e mesmo assim não foi possível fazer filamento longo nem imprimir peças.

O estudo indonésio de 2026 é o único dessa lista que mediu resistência. As melhores peças, impressas com o fio de fita mais grossa, chegaram a 48,18 MPa de resistência à tração em média, na faixa de outros estudos com PET reciclado citados pelos autores (perto de 40 a 45 MPa). Algumas peças com defeito de impressão romperam bem antes. Os autores avisam que mediram só o comportamento de curto prazo: durabilidade, envelhecimento e fadiga ficaram de fora. Comparar esses números com a ficha de um PETG comercial também não é justo: as peças de teste foram impressas com preenchimento, orientação e máquina diferentes, e algumas fichas usam outra norma de ensaio.
Quer reaproveitar sem filetador? O que funciona de verdade
Se a motivação é gastar menos ou jogar menos plástico fora, há caminhos mais curtos do que montar uma máquina:
- Começar pelo que já sobra da impressora. Peça falhada e ponta de bobina têm destino melhor que a lixeira, e o guia de reaproveitamento mostra cada um, junto com a conta do equipamento.
- Comprar PETG pronto. É o material pensado pra impressora, com diâmetro controlado de fábrica. Se a dúvida é marca, veja o comparativo de filamento nacional e importado.
- Fazer o filetador como projeto, não como fábrica. Pra feira de ciências ou aula de robótica, ele ensina muito sobre plástico e controle de temperatura. Só entre sabendo que o objetivo é aprender, não encher a gaveta de rolos.
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Fotos: Polina Tankilevitch, Jakub Zerdzicki e Vanessa Loring / Pexels.
Ruan — Tamo Tudo 3D
Sou o Ruan, de Contagem/MG. Imprimo em 3D desde março de 2026 nas minhas Anycubic Kobra S1, Kobra 3 V2 e Kobra X. Os custos, tempos e margens que você lê aqui vêm da bancada real — medidos na mão, não de teoria.
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