1 kg de Filamento: Quanto Sobra Depois do Desperdício

Um rolo de 1 kg não vira 1 kg de peça vendida. Parte vira suporte, parte vira torre de purga e parte vira peça torta no lixo. A conta que importa não é 1.000 g dividido pelo peso da peça — é 1.000 g menos o que você perde, dividido pelo peso da peça. Numa peça simples, de uma cor e sem suporte, a perda é pequena. Numa peça de quatro cores com suporte, o mesmo rolo pode render quase metade das unidades. A tabela de rendimento bruto por tipo de peça está em Quanto Rende 1 kg de PLA; aqui é o passo seguinte: o desconto.

A conta certa: 1.000 g menos o que você perde
Existem duas contas, e quase todo mundo só faz a primeira.
RENDIMENTO BRUTO
peças = 1.000 g ÷ peso da peça
RENDIMENTO LÍQUIDO
material útil = 1.000 g − suporte − purga − refugo
peças = material útil ÷ peso da peça
Cuidado com o peso que entra no divisor: ali vai só o peso da peça, o valor por objeto que o slicer mostra. O total da impressão que o OrcaSlicer exibe já embute suporte e torre de purga — se você jogar esse total na fórmula, vai descontar as mesmas perdas duas vezes e achar que rende menos do que rende.
O rendimento bruto é o número do folheto. Serve pra ter ordem de grandeza e nada mais. O líquido é o número que decide se você lucra.
Um exemplo com um chaveiro de 12 g, uma cor só, sem suporte. Bruto: 1.000 ÷ 12 = 83 peças. Agora desconte a provisão de refugo de 8% (o meio da faixa de 5% a 10% de peças que precisam ser refeitas numa operação normal): sobram 920 g úteis, que dão 76 peças. Sete peças de diferença. Se o seu preço foi calculado em cima das 83, essas sete saíram do seu bolso.
E a diferença cresce quando a peça é complicada. É por isso que descontar antes é mais barato que descobrir depois.
Uma referência útil pra PLA: um rolo de 1 kg em 1,75 mm tem por volta de 330 metros de filamento, com densidade em torno de 1,24 g/cm³. Números aproximados e válidos só pra PLA 1,75 mm. PETG é mais denso — a mesma peça em PETG pesa mais e rende menos unidades por quilo. Não chute a diferença: fatie a peça nos dois materiais e leia o peso.
Quanto pesa cada peça que vende (faixa, não número exato)
Antes de dividir, você precisa saber o peso. E aqui vem o aviso que vale por toda a tabela: peso depende de preenchimento, número de paredes e tamanho — a mesma peça pode dobrar de peso sem mudar de tamanho. Por isso tudo abaixo é faixa, não número fechado.
| Tipo de peça | Faixa de peso | De onde vem o número (post no blog) |
|---|---|---|
| Chaveiro | 8 a 18 g (média ~12 g) | chaveiro articulado |
| Organizador rápido (porta-caneta, bandeja, gancho) | menos de 20 g | organizadores-de-mesa-e-gaveta-para-imprimir-em-menos-de-1 |
| Organizador de mesa maior | 80 a 150 g | quanto-rende-1-kg-de-pla-tabela-real-por-peca |
| Caixa organizadora média com gavetas | 150 a 350 g | quanto-rende-1-kg-de-pla-tabela-real-por-peca |
| Porta-celular de mesa | 35 a 60 g | 5-modelos-de-porta-celular-3d-firmes-para-celulares-grandes |
| Vaso pequeno em modo espiral | 40 a 80 g | quanto-rende-1-kg-de-pla-tabela-real-por-peca |
| Action figure pequeno/médio | 80 a 150 g (preenchimento 15-20%) | quanto-custa-imprimir-um-action-figure-3d-em-casa |
A terceira coluna traz o endereço do post daqui de onde cada faixa saiu: cole em tamotudo3d.com.br/blog/ na frente pra abrir e conferir a conta.
Repare nas três linhas de organizador. Elas não conversam entre si, e isso não é erro de tabela: "organizador" vai de porta-caneta oco de menos de 20 g até caixa com três gavetas de 150 a 350 g. É a mesma palavra pra peças de porte completamente diferente. Escolher um lado seria mentir pro leitor. Pese o seu modelo.
Nota dos vasos: a faixa de 40 a 80 g da tabela é a do vaso em modo espiral que já publicamos na nossa tabela de rendimento de PLA. Pro vaso decorativo grande, de 25 cm, a referência que temos publicada é de cerca de 180 g (post quanto-custa-vaso-decorativo-3d) — número de fatiamento, não de balança. Nenhum dos dois dispensa fatiar o seu modelo antes de precificar.

Os três descontos: suporte, purga e refugo
São os mesmos três da fórmula lá em cima, e são os únicos que saem do rolo antes da peça pronta. Eles não somam sempre: peça simples de uma cor, impressa numa orientação que dispensa suporte, não tem nem suporte nem purga. Descontar tudo em toda peça produz um rendimento fantasma tão errado quanto ignorar o desperdício. A purga tem seção própria logo abaixo, porque ela só aparece quando entra troca de cor.
Antes deles, um aviso sobre o preenchimento — que vive nessa conversa e não é desconto nenhum.
Preenchimento (define o peso da peça, não o desconto)
O preenchimento decide quanto a peça pesa, e o peso da peça é o divisor da conta. Ele não sai do rolo antes: ele já está dentro do número que você divide. Se descontar o preenchimento também, você conta a mesma coisa duas vezes.
O preenchimento mexe no miolo, e só no miolo. Num chaveiro fino, as paredes ocupam quase todo o volume e mudar de 20% pra 15% quase não altera o peso. Numa peça grossa e maciça, o miolo é a maior parte da peça e o preenchimento manda na conta.
Quanto exatamente? Depende da peça, e nós não temos número medido pra generalizar. O método é simples e leva dois minutos: fatie a mesma peça nas duas configurações no OrcaSlicer e compare o peso estimado que ele mostra. O resultado é do seu modelo, não da internet.
Suporte
O suporte é o desconto mais fácil de pegar, porque o slicer conta ele separado. Antes de mandar imprimir, olhe o peso de suporte na estimativa — é material que vai direto pro lixo depois de arrancado.
O truque que resolve mais que qualquer ajuste fino: girar a peça. Muita peça que pede 20 g de suporte deitada pede zero em pé. Vale testar duas ou três orientações e fatiar cada uma antes de escolher.
Refugo (a peça que falhou)
Numa operação normal, entre 5% e 10% das peças precisam ser refeitas. Descolou da mesa, entupiu no meio, saiu com camada torta. Isso não é azar, é custo operacional previsível — e tem que entrar no preço como provisão, do mesmo jeito que uma padaria conta o pão queimado.
Aqui mora a única coisa que o slicer não enxerga. O peso estimado do OrcaSlicer já inclui a torre de purga e o material de descarga. O que ele nunca vai contar é a peça que falhou e foi pro lixo. Esse desconto é seu, na mão. Os outros erros de conta que derrubam a margem estão em 5 erros de preço que fazem você imprimir no prejuízo.
Multicolor: a purga que sai do mesmo rolo
Se você imprime em cores automáticas, aparece um quarto consumidor de filamento que não existe no monocromático: a purga. A cada troca de cor o sistema expulsa o filamento antigo do bico até sair cor limpa, e isso vira torre de purga.
Aqui eu falo em primeira pessoa, porque são as minhas máquinas: na Kobra S1 Combo e na Kobra 3 V2 Combo, as duas com ACE Pro, a purga fica na faixa de 1 a 3 g descartados por troca, com 15 a 40 segundos perdidos em cada uma.
Parece pouco. Junte as trocas e não é. O exemplo que já publicamos no nosso post de duas cores: uma peça de 120 g com 14 trocas a cerca de 2,5 g cada joga 35 g fora — 23% de tudo que saiu do rolo naquela impressão. Em peça de quatro cores, a purga costuma somar de 20% a 40% do peso da peça: uma peça de 100 g pode consumir de 120 g a 140 g de material.
O efeito no rendimento é direto. Aquela peça de 120 g com purga consome 155 g por unidade. O rolo que renderia 8 peças rende 6.
Sobre a Kobra X: ela usa ACE 2 Pro integrado na própria toolhead, com caminho de filamento mais curto que o ACE Pro externo da S1 e da 3 V2. Na teoria isso derruba a purga por troca. Segue como hipótese até a balança confirmar — não vou publicar como medido o que ainda não pesei. Os três jeitos de imprimir em duas cores, com e sem módulo automático, estão em como imprimir em duas cores.

Do rolo pro preço: quanto cada peça custa de filamento
Com o peso da peça em mãos, o custo de material é uma multiplicação. O preço por grama é o preço do quilo dividido por mil.
| Faixa de filamento | Preço por kg | Custo por grama |
|---|---|---|
| PLA outlet nacional | R$50 a R$65 | R$0,050 a R$0,065 |
| PLA nacional custo-benefício (3DLab Premium) | R$65 a R$90 | R$0,065 a R$0,090 |
| PLA nacional econômico (Voolt3D) | cerca de R$96 | cerca de R$0,096 |
| PLA silk (Voolt3D V-Silk HS) | cerca de R$96 | cerca de R$0,096 |
| PLA velvet premium | por volta de R$110 | por volta de R$0,110 |
A conta completa fica assim:
custo de material bruto = gramas da peça × R$ por grama
custo de material REAL = custo bruto ÷ (1 − perda estimada)
No chaveiro de 12 g com filamento a R$0,096/g: R$1,15 de material bruto. Aplicando a provisão de 8% de refugo, o custo real por peça vendida vai pra R$1,25. Parece detalhe de centavo — multiplique por 300 chaveiros e vire mês.
E é importante deixar claro onde este post para: material é só o primeiro custo de seis. Energia, depreciação da máquina, mão de obra, taxa de marketplace e margem entram depois, e cada um muda o preço final. A fórmula inteira, na ordem certa, está em preço de venda de peça 3D em 6 passos.
Como descobrir o SEU rendimento em uma bobina
Nenhuma tabela vale mais que a sua própria medição — inclusive a nossa. Dá pra levantar o número real da sua operação gastando só um rolo e uma balança de cozinha de 0,1 g.
- Anote o peso da bobina cheia, com carretel. Marque na etiqueta com caneta.
- Conte as peças boas até o filamento acabar. Só as vendáveis. Peça torta não conta.
- Guarde o lixo do rolo num saco: torres de purga, suportes arrancados, skirt, peças refugadas. No fim, pese o saco.
- Pese o carretel vazio quando o rolo acabar. Peso da bobina cheia − carretel vazio = as gramas reais de filamento que você comprou. Use esse número no lugar dos 1.000 g nominais: o peso real varia de fabricante pra fabricante, e é ele que manda na sua conta.
- Feche os dois números. A contagem de peças boas já é o seu rendimento líquido daquele rolo — não divide por nada. Pra saber quanto cada peça vendável custou de material de verdade, faça gramas reais do rolo ÷ peças boas: isso dá as gramas por peça já com suporte, purga e refugo embutidos. E o desperdício em porcentagem é peso do saco ÷ gramas reais do rolo × 100.
Se você imprime multicolor, pese a torre de purga separada e anote junto o número de trocas que o slicer mostrou. Dividindo um pelo outro você tem o seu custo médio por troca em gramas — e, multiplicando pelo preço por grama, em reais.
Faça isso uma vez por tipo de peça que você vende. Em duas ou três bobinas você para de estimar e passa a saber. É a diferença entre achar que vende com lucro e ter certeza.
Ruan — Tamo Tudo 3D
Sou o Ruan, de Contagem/MG. Imprimo em 3D desde março de 2026 nas minhas Anycubic Kobra S1, Kobra 3 V2 e Kobra X. Os custos, tempos e margens que você lê aqui vêm da bancada real — medidos na mão, não de teoria.
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